DUQUE DE CAXIAS (1803-1880)
Luis Alves de Lima e Silva, patrono do Exército Brasileiro, foi Ministro da Guerra e chefe do Gabinete Ministerial. Participou, como capitão, da guerra Cisplatina entre o Brasil e a Argentina (1825/28) pela posse da banda oriental, o Uruguai. Em 1839, comandou a Frente Pacificadora do Norte, que debelou a Balaiada no Maranhão. É então agraciado Barão de Caxias, cidade onde derrotou os revoltosos. Em 1842, é encarregado de debelar a Guerra dos Farrapos nas terras gaúchas. Com o seu sucesso em fazer um acordo de paz, é elevado a conde e escolhido senador em 1846, pela província do Rio Grande do Sul.
Em 1864, tem início a Guerra do Paraguai, o maior e mais sangrento conflito da história sul americana, tendo de um lado a tríplice aliança formada pelo Brasil, Argentina e Uruguai e do outro, o Paraguai. Em 1869, os brasileiros entram em Assunção.
Após essa vitória, como informa o historiador Boris Fausto, “doente, desejando a paz, pois a continuação da guerra era motivada apenas por uma política de destruição, Caxias retirou-se do comando. Foi substituído pelo Conde D´Eu, marido da Princesa Isabel, herdeira do trono imperial. O Conde continuou a guerra por mais um ano, somente dando por encerrado o confronto em 1870, com a morte de cerca de 90% da população masculina paraguaia. A última batalha deu-se contra um pequeno exército formado de velhos, meninos e enfermos.
O texto abaixo é uma mensagem do Duque de Caxias ao Imperador D. Pedro II, encontrada no Museu Mitre, em Buenos Aires, em que o general brasileiro, antevendo o verdadeiro genocídio que resultaria da continuação da guerra – e que de fato veio a ocorrer – roga ao Imperador que o demita do cargo de comandante das tropas imperiais, o que somente vem a acontecer em 1869.
Eis a carta do pedido de demissão do comando:
Majestade,
López tem o dom sobrenatural de magnetizar os soldados, infundindo-lhes um espírito que não se pode explicar suficientemente com as palavras: o caso é que se tornam extraordinários, longe de temer o perigo, enfrentam-no com um arrojo surpreendente, longe de economizar sua vida, parece que buscam com frenético interesse a ocasião de sacrificá-la heroicamente, e de vendê-la por outra vida ou por muitas vidas de seus inimigos. Tudo isso faz com que, ante os soldados paraguaios, não sejam garantias as vantagens numéricas, as vantagens de elementos e as vantagens de posição: tudo é fácil e acessível para eles. E eis aqui o que dá a lógica de que é impossível vencer a López, e que é impossível o triunfo da guerra contra o Paraguai.
Como haveríamos conseguido vencer a guerra, fácil é saber-se, tomando por exato o infalível antecedente do tempo que temos empregado nessa guerra, os imensos recursos e elementos esterilmente empregados nela; os muitos milhares de homens esterilmente também sacrificados nela; em uma palavra, os incalculáveis e imensos sacrifícios de todo gênero que ela nos custa; e se tudo isto não tem dado por resultado mais que nossa abatida situação, quanto tempo, quantos homens, quantas vidas e quantos elementos e recursos precisaremos para terminar a guerra, isto é, para converter em fumo e pó toda a população paraguaia, para matar até o feto do ventre da mulher, e matá-lo não como a um feto, mas como a um adail. E o que teríamos conseguido, também é difícil dizer: seria sacrificar um número dez vezes maior de homens do que são os paraguaios, seria sacrificar um número dez ou vinte vezes maior de mulheres e crianças do que são as crianças e mulheres paraguaias; seria sacrificar um número cem mil vezes maior do que toda classe de recursos do que são os recursos paraguaios; seria conquistar não um povo, mas um vasto cemitério em que sepultariam- os no nada toda a população e recursos paraguaios e cem vezes mais a população e recursos brasileiros. E que seríamos sobre um vasto cemitério? Seríamos os coveiros que teriam de enterrar as cinzas de nossas vítimas, que responder a Deus e ao mundo os seus clamores.
A paz com López, a paz, Imperial Majestade, é o único meio salvador que nos resta. López e invencível, López tudo pode, e sem a paz, Majestade, tudo estará perdido e antes de presenciar esse cataclismo funesto, estando eu à frente dos exércitos imperiais, impetro a V. Majestade a especialíssima graça de outorgar-me minha demissão do honroso posto que V. Majestade me tem confiado.
Beijo a imperial mão de V. Majestade.
O Marquês de Caxias
Meus Comentários
Naquele tempo, última parte do século 19, o mundo era inteiramente dominado pelo Império Britânico. A bandeira britânica era fincada em cada lado de todo e qualquer estreito ou ponto estratégico com exceção do Estreito de Berring, lá nas águas geladas do extremo pólo norte, isto porque, de um lado estava a Rússia e do outro, os Estados Unidos da América. No resto tremulava imponente e ostensivamente a bandeira de sua Majestade Imperial Britânica.
O Belzebu convenceu a Rainha Vitória que o mundo todo pertencia ao Império Britânico e que este detinha exclusivamente o direito de fabricar coisas, mormente tecidos de algodão. Consequentemente, a Coroa Imperial Britânica, amparada em sua força naval, ordenou que a Coroa Portuguesa destruísse na marreta, todos os estabelecimentos industriais existentes na colônia, excetuando as destilarias de cachaça e fábricas do tecido chita que era usado pelos escravos.
O Paraguai com a sua população altamente alfabetizada e bem alimentada, estaleiros onde construíam seus navios, siderurgia avançada, fabricas de tecidos e tantos outros monumentais empreendimentos, mandou seus navios abarrotados de mercadorias, descer o Rio Paraná, ultrapassar o estuário do Prata, singrar os mares e vender as mercadorias em concorrências com as britânicas. Por isso, sofreu impiedosamente a fúria destruidora daquele império que utilizou o Brasil como pau mandado na triste tarefa de destruí-lo.
Ainda bem que a vergonha não nos mata.
Narcides Araújo – pesquisador da historia da América Latina (sem preconceitos)
P.S.: Sobre a guerra do Paraguai, é importante ler “Genocídio Americano: Guerra do Paraguai, de Julio José Chiavenatto, Editora Brasiliense.”